Superando desinteligências e elevando o nível de qualidade do viver
9 de outubro de 2025“BUFÊ ESPIRITUAL” – LITURGIA DE 1 DE JANEIRO DE 2026
1 de janeiro de 2026O vocábulo educar significa, segundo o Dicio – Dicionário Online de Português <https://www.dicio.com.br/educar/>: Oferecer a alguém o necessário para que esta pessoa consiga desenvolver plenamente a sua personalidade. Propagar ou transmitir conhecimento (instrução) a; oferecer ensino (educação) a; instruir. […] Tentar alcançar um alto nível de desenvolvimento moral, espiritual etc.; aperfeiçoar-se. Adaptar-se às condições climáticas; aclimar. Etimologia (origem da palavra educar). Do latim educare.
Educar é sinônimo de: explicar, lecionar, pontificar, adestrar, doutrinar, ensinar, formar, instruir. E o antônimo, o contrário de educar é deseducar.
Em um diálogo com um ser humano pelo qual tenho grande apreço, portador de muitas qualidades admiráveis, tive a oportunidade de lhe dizer, em um diálogo sobre as dificuldades que tendem ser enfrentadas no relacionamento conjugal, que a esperança é algo que nos move e dá forças para resistir os ‘baques’ da jornada… Porém é muito importante discernir entre esperança e ilusão.
Expressei que na vida conjugal, por exemplo, quando se perde a esperança no cônjuge, é comum passar a alimentar pensamentos de que vai aparecer alguém melhor… Mas o que tende a ocorrer nos relacionamentos é que “evoluem” e o que acaba acontecendo é o seguinte: quem se imaginava melhor, aparentando o “príncipe encantado”, em pouco tempo se revela um sapo asqueroso… e quem se supunha ser uma princesa maravilhosa se revela uma megera insuportável…
Tais realidades, que brotam no traiçoeiro terreno da ilusão, se estabelecem no dia-a-dia e assolam miríades de vidas! Esse é o caminho da ilusão, não da esperança. A esperança que devemos cultivar sempre – esperando e se empenhando para tornar realidade esse esperado – é a de nos tornarmos a melhor versão de nós mesmos, de modo a inspirar quem está ao nosso lado a se tornar a melhor versão de si mesmo também.
Esse é o caminho da esperança saudável, é nisso que devemos apostar! Fazer o nosso melhor, apoiar a pessoa que está ao nosso lado, conversar francamente para compreender e dar os passos necessários para superar os obstáculos e avançar na relação, elevando gradativamente o nível de harmonia e felicidade. E também é importante ceder naquilo que a outra pessoa necessita para se sentir confiante… É nessa “pegada” que as coisas fluem de forma consistente, verdadeira, real… Demorei muito para compreender isso, mas, graças e Deus, compreendi!
Essa partilha clareou para mim a necessidade de educar o olhar, de aplicar nos relacionamentos – e em especial na relação conjugal – o que me parece uma boa síntese do significado do vocábulo educar: aprimorar, tornar melhor, evitar o indesejável e promover o desejável. Sou sumamente grato esse ser humano que me é tão caro pela oportunidade que me proporcionou nessa interação: tanto pela compreensão que veio à tona naquele momento quanto pelo estímulo gerado para aprofundar a reflexão, conforme segue.
Educação do olhar
A educação do olhar implica, portanto, em esforço consciente para olhar o cônjuge – a pessoa com quem se convive em uma das relações mais complexas e desafiadoras – com o melhor dos olhares, com o foco nas qualidades e com o propósito de lhe proporcionar o melhor possível para que se supere e seja feliz.
Essa educação do olhar requer empenho para superar os azedumes, os ranços, as implicâncias… e imbuir-se sinceramente do propósito de ver as qualidades e desse modo inspirar, motivar e estimular o cônjuge a dar vazão a essas – que já se consegue observar – e a outras qualidades que emergirão a partir da “virada relacional” que se estabelece com essa atitude, com esse propósito de educar o olhar focando no que é positivo, saudável, desejável, agradável…
Isso tende a elevar o relacionamentos em espirais ascendentes, com o estabelecimento gradativo de círculos virtuosos, que fazem a relação evoluir, ao contrário dos círculos viciosos produzidos pelas críticas, azedumes, irritações…
A educação do olhar implica em filtrar tudo aquilo que vem à mente para denegrir a pessoa que a vida trouxe para viver ao nosso lado e com a qual compartilhamos o viver da forma mais íntima.
Do mesmo modo que ocorre com as pessoas rudes de modo geral, popularmente denominadas de “mal educadas”, que apresentam comportamentos precários, indesejáveis, marcados por condutas desagradáveis, de mau gosto e geradoras de mal-estar por onde passam, há uma forte tendência, quando não se busca, quando não há o empenho sincero e determinado para educar o olhar em relação às pessoas – e em especial para com as mais próximas – de se replicar, reproduzir tais condutas indesejáveis, precárias, desagradáveis e geradoras de mal-estar, nos relacionamentos íntimos.
A maior responsabilidade é de quem tem mais consciência
O papel fundamental para se estabelecer tal realidade de evolução, superação, de evolução do relacionamento – com base no princípio ético de que quem tem mais consciência tem mais responsabilidade – cabe ao cônjuge que possui maior nível de consciência, de maturidade, de conhecimento, de sabedoria de vida…
Cumpre, pois, a quem tem mais consciência, tomar a iniciativa, dar o exemplo: ao invés de dar vasão às expressões reativas frente às negatividades observadas no cônjuge, nessa perspectiva – de quem se empenha em educar o olhar – evocar as lembranças de tudo de bom que o companheiro ou companheira agregou ao longo da jornada… E evocar as lembranças dos frutos que essa pessoa tornou viável, em especial os filhos…
Cabe à pessoa que se dedica a educar o olhar no relacionamento conjugal envidar os mais sinceros empenhos para conter a perspectiva crítica e negativa… E ao invés disso, envolver o outro com camadas e sobrecamadas de ternura – como a ostra que forma a pérola com camadas e sobrecamadas da secreção que produz para se proteger do incômodo produzido pelo grão de areia – presenteando desse modo o cônjuge com a pérola do olhar educado.
A esperança a ser cultivada, portanto, é de que as consequências dessa mudança transformem o espaço do lar, tirando-o, passo a passo, da condição de “filial do inferno” e tornando-o, gradual e progressivamente, em extensão – ou antecipação – do paraíso!
Como se faz isso na prática? Me parece que o ponto de partida é imbuir-se da consciência de que nossa herança cultural tende ser bastante precária. A civilização precisa dar muitos passos e superar terríveis precariedades que ainda caracterizam as pessoas de modo geral. Os modos de agir e reagir requerem muitos reparos e me parece que essa proposta de educação do olhar pode contribuir muito nesse sentido. A princípio estou propondo essa abordagem de educação do olhar especificamente para o trato conjugal, mas ela é aplicável a todos os relacionamentos.
E no dia-a-dia, como proceder? A pessoa fala algo que não soou bem? Posso me irritar e responder “à altura”. Ou posso ouvir e silenciar, refletir, ponderar… Posso julgar imediatamente a pessoa. Mas ao invés disso, posso também olhar com compaixão, considerar que aquela atitude é resultante de uma sequência de fatores, de um contexto impróprio, que não a favoreceu para se portar melhor… E valendo-se do propósito estabelecido de tudo revestir de ternura, tolerar o mau procedimento e reagir com espírito elevado, com paz, amor, carinho, com profunda ternura…
Postura sensata, realista, focada na resiliência
E então, agindo de tal forma tudo se transformará em um “mar de rosas”? Haverão muitas melhorias, certamente, mas isso não significa que deixarão de haver momentos álgidos, duros, altamente desafiadores, que levarão à tentação de “jogar tudo para o alto”… Porém o “remédio” para isso será a paciência e a constância…
Outro ponto importante: serei capaz de me manter sempre cem por cento do tempo focado, com as atitudes sintonizadas nesse propósito, coerentes com ele? Certamente não, haverão resvalões, tropeços, quedas… Mas cumpre levantar, retomar e seguir em frente…
É necessário ainda estar prevenido para o seguinte: depois de todos esses inauditos esforços, haverá reconhecimento, alguma manifestação de apreço… alguma centelha de gratidão se acenderá no coração do outro? Melhor não contar com isso!
O ser humano “bruto”, que não se lançou a um processo de auto-cultivo sério, tende a ser insaciável… Nada, absolutamente nada o satisfaz… Haverá sempre a expectativa de mais e mais… Quem não tem o olhar educado na perspectiva retromencionada tem uma propensão aguda a minimizar tudo o que recebe de bom e maximizar os menores dissabores, potencializando-os e colocando-os “na vitrine”, obnubilando, empalidecendo, fazendo dissipar de sua tela mental tudo o que há de positivo em relação ao outro, mergulhando tudo no próprio azedume existencial…
E o que cabe fazer, como ser portar diante disso? Perseverar, superar, atuar com resignação e paciência!
Educação da língua, do ouvido e dos pensamentos
Quando se compreende isso, quando se passa a caminhar nessa direção, tendo esse propósito como norte, essa educação do olhar vai frutificando em educação também da língua, que deixa de falar o que não vale a pena ser expressado; do ouvido, que deixa de dar importâncias a falas que são claramente produtos de imaturidade (e se levadas em conta se tornam veneno puro); e também dos pensamentos: evita-se dar “rédeas soltas” a conjecturas devaneantes que aprofundam cada vez mais as mágoas, os ressentimentos e um sem número de negatividades…
Esse processo, esse cultivo pessoal sendo assumido em relação ao cônjuge gera uma espécie de “campo de proteção”, “imunizando” os cônjuges de cair nas armadilhas que rondam constantemente um e outro, dentre as quais a tentação de “mergulhar no pecado”, cultivando “afetos secretos” para suprir os danos do fracasso conjugal – os quais geram os mais terríveis dissabores, tal e qual quaisquer outras atitudes ilícitas que possam ser tomadas nas mais diversas órbitas do viver…
Perdão e autoperdão
Importa ainda, nessa perspectiva, seja qual for a retrospectiva – o que ocorreu no passado – envolver tudo em camadas curadores de perdão do que o outro fez de errado e também de autoperdão daquilo que se fez e não deveria ter sido feito.
Autoconsciência, empatia, compaixão e estado de alerta para manter a paz
Todos, de um modo ou de outro, apresentamos em nossos comportamentos manias e/ou transtornos psicológicos que se expressam em maior ou menor grau, sendo necessário enfrentar essas realidades buscando perceber o que é importante para a outra pessoa e identificar o que é possível fazer para amenizar, tanto quanto possível, suas limitações… Cabe buscar contribuir da melhor forma possível para as superações, colocando em prática a máxima expressa na canção: “se amor é decisão, eu decidi te amar!”
É importante também manter-se vigilante para minimizar as “pauladas” mantendo-se atento às oportunidades para fazer refletir… E ciente de ter se empenhado para fazer o melhor possível, “digerir mentalmente” os impropérios aceitando com resignação o que o outro não consegue superar, sem perder a paz.
Quem assim procede vai ampliando o nível de maturidade e transmutando o azedume existencial em paz profunda… E se um dia o cônjuge vier a faltar, se decidir lançar-se a outro “empreendimento conjugal”, terá grandes chances de não se tornar um “príncipe-sapo” ou uma “princesa-megera”. Sem passar por esse processo, a “novela” se repete indefinidamente, reiterando o mesmo roteiro, apenas mudando de endereço…
Investimento que paga excelentes dividendos!
Os empenhos de cultivo consciente do relacionamento, a dedicação em manter o olhar focado nas qualidades do outro; em manter o ouvido seletivo, não dando importância ao que não vale a pena; em “manter a língua entre os dentes”, não falando o que não vale a pena; em manter um controle consciente sobre os pensamentos, não permitindo “rédeas soltas” às críticas mentais do outro é algo que exige algum esforço, porém os benefícios são imensamente superiores.
Em síntese: quando há a constância nessas atitudes, o relacionamento conjugal vai saindo gradualmente da realidade frustrante dos conflitos recorrentes (os quais deixam de ser alimentados quando as posturas assertivas e maduras passam a predominar por parte do cônjuge com maior nível de consciência) e eleva-se ao que pode ser definido como realidade de amor extasiante.
O relacionamento conjugal, como qualquer empreendimento, quando bem gerido, adequadamente administrado, gera resultados alvissareiros. Do contrário, sendo mal administrado, redunda em fracassos e dissabores sem fim…
Resgate fundamental para evitar sequelas psicológicas nos filhos
Pessoas com maturidade para não “viajar no mundo mágico” se mantém alertas para não se perderem em devaneios imaginários e buscam dia-a-dia compreender a realidade a fundo, com humildade e respeito, empenhando-se para desenvolver a sensibilidade e auscultar as necessidades do cônjuge, buscando contribuir com ele para satisfazer essas necessidades e resgatar, passo a passo, dia a dia, o relacionamento, o amor, a paz e a felicidade conjugal.
Essas atitudes, esse determinação em fazer o melhor, em educar-se para viver em paz e construindo a felicidade conjugal sobre bases sólidas é fundamentar para evitar – ou sanar – eventuais sequelas psicológicas que tendem a se estender para os filhos. Constitui-se em processo de restauração que também contribui significativamente para o desenvolvimento da prole.
Auto-superação, libertação
Nesse processo, quem se dispõe a educar o olhar, a língua, os ouvidos e os pensamentos se liberta do próprio azedume existencial e passo a passo, gradual e progressivamente, conquista a coroa da vitória das vitórias, que é a que se consegue sobre si mesmo. E aí não mais importa como as pessoas ao redor ajam ou reajam: a verdadeira paz foi definitivamente conquistada!
Referências:
- Mateus 7,12: “Tudo o que quereis que as pessoas vos façam, fazei-o vós a elas.”
- Mateus 11,29: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.”
- Lucas 2,29: “Maria guardava todas essas coisas e as meditava em seu coração.”
- Tiago 3,3-6: “Quando pomos o freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, governamos também todo o seu corpo. Vede também os navios: por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas. Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta! Também a língua é um fogo, um mundo de iniquidade. A língua está entre os nossos membros e contamina todo o corpo; e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida.”
- 1 Coríntios 4:7: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo perdoa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
