Superando desinteligências e elevando o nível de qualidade do viver
9 de outubro de 2025“BUFÊ ESPIRITUAL” – LITURGIA DE 1 DE JANEIRO DE 2026
1 de janeiro de 2026O vocábulo educar significa, segundo o Dicio – Dicionário Online de Português <https://www.dicio.com.br/educar/>: Oferecer a alguém o necessário para que esta pessoa consiga desenvolver plenamente a sua personalidade. Propagar ou transmitir conhecimento (instrução) a; oferecer ensino (educação) a; instruir. […] Tentar alcançar um alto nível de desenvolvimento moral, espiritual etc.; aperfeiçoar-se. Adaptar-se às condições climáticas; aclimar. Etimologia (origem da palavra educar). Do latim educare.
Educar é sinônimo de: explicar, lecionar, pontificar, adestrar, doutrinar, ensinar, formar, instruir. E o antônimo, o contrário de educar é deseducar.
Em um diálogo com um ser humano pelo qual tenho grande apreço, portador de muitas qualidades admiráveis, tive a oportunidade de lhe dizer, em um diálogo sobre as dificuldades que tendem ser enfrentadas no relacionamento conjugal, que a esperança é algo que nos move e dá forças para resistir os ‘baques’ da jornada… Porém é muito importante discernir entre esperança e ilusão.
Expressei que na vida conjugal, por exemplo, quando se perde a esperança no cônjuge, é comum passar a alimentar pensamentos de que vai aparecer alguém melhor… Mas o que tende a ocorrer nos relacionamentos é que “evoluem” e o que acaba acontecendo no duro chão da realidade é que quem se imaginava melhor, aparentando o “príncipe encantado”, em pouco tempo se revela um sapo asqueroso… e quem se supunha uma princesa maravilhosa se revela uma megera insuportável…
Tais realidades, que brotam no traiçoeiro terreno da ilusão, se estabelecem no dia-a-dia e assolam miríades de vidas! Esse é o caminho da ilusão, não da esperança. A esperança que devemos cultivar sempre – esperando e se empenhando para tornar realidade esse esperado – é a de nos tornarmos a melhor versão possível de nós mesmos, de modo a inspirar quem está ao nosso lado a se tornar a melhor versão possível de si mesmo também.
Esse é o caminho da esperança saudável, é nisso que devemos apostar! Fazer o nosso melhor, apoiar a pessoa que está ao nosso lado, conversar francamente para compreender e dar os passos necessários para superar os obstáculos e avançar na relação, elevando gradativamente o nível de harmonia e felicidade. E também é importante ceder naquilo que a outra pessoa necessita para se sentir confiante… É nessa “pegada” que as coisas fluem de forma consistente, verdadeira, real… Demorei muito para compreender isso, mas, graças e Deus, compreendi!
Essa partilha clareou para mim a necessidade de educar o olhar, de aplicar nos relacionamentos – e em especial na relação conjugal – o que me parece uma boa síntese do significado do vocábulo educar: aprimorar, tornar melhor, evitar o indesejável e promover o desejável.
Sou sumamente grato esse ser humano que me é tão caro pela oportunidade que me proporcionou nessa interação: tanto pela compreensão que veio à tona naquele momento quanto pelo estímulo gerado para aprofundar a reflexão, conforme segue.
Educação do olhar
A educação do olhar implica, portanto, em esforço consciente para olhar o cônjuge – a pessoa com quem se convive em uma das relações mais complexas e desafiadoras – com o melhor dos olhares, com o foco nas qualidades e com o propósito de lhe proporcionar o melhor possível para que se supere e seja feliz.
Essa educação do olhar requer empenho para superar os azedumes, os ranços, as implicâncias… e imbuir-se sinceramente do propósito de ver as qualidades e desse modo inspirar, motivar e estimular o cônjuge a dar vazão a essas – que já se consegue observar – e a outras qualidades que emergirão a partir da “virada relacional” que passa a se estabelecer com essa atitude, com esse propósito de educar o olhar focando no que é positivo, saudável, desejável, agradável…
Isso tende a elevar o relacionamentos em espirais ascendentes, com o estabelecimento gradativo de círculos virtuosos, que fazem a relação evoluir, ao contrário dos círculos viciosos produzidos pelas críticas, azedumes, irritações, agressões verbais…
A educação do olhar implica em filtrar tudo aquilo que vem à mente para denegrir a pessoa que a vida trouxe para viver ao nosso lado e com a qual compartilhamos a existência da forma mais íntima.
Do mesmo modo que ocorre com as pessoas rudes de modo geral, popularmente denominadas de “mal educadas”, que apresentam comportamentos precários, indesejáveis, marcados por condutas desagradáveis, de mau gosto e geradoras de mal-estar por onde passam, há uma forte tendência, quando não se busca, quando não há o empenho sincero e determinado para educar o olhar em relação às pessoas – e em especial para com as mais próximas – de se replicar, reproduzir nos relacionamentos íntimos tais condutas indesejáveis, precárias, desagradáveis e geradoras de mal-estar.
A maior responsabilidade é de quem tem mais consciência
O papel fundamental para se estabelecer tal realidade de progresso, superação, de evolução do relacionamento – com base no princípio ético de que quem tem mais consciência tem mais responsabilidade – cabe ao cônjuge que possui maior nível de conhecimento, de maturidade, de sabedoria de vida…
Nessa perspectiva, de quem se empenha em educar o olhar, cumpre a quem tem mais consciência tomar a iniciativa, dar o exemplo: ao invés de dar vasão às expressões reativas frente às negatividades observadas no cônjuge, evocar as lembranças de tudo de bom que o companheiro ou companheira agregou ao longo da jornada… E evocar as lembranças dos frutos que essa pessoa tornou viável, em especial os filhos…
Cabe à pessoa que se dedica a educar o olhar no relacionamento conjugal envidar os mais sinceros empenhos para conter a perspectiva crítica e negativa… Ao invés disso, envolver o outro com camadas e sobrecamadas de ternura – como a ostra que forma a pérola com camadas e sobrecamadas da secreção que produz para se proteger dos incômodos produzidos pelo grão de areia – presenteando desse modo o cônjuge com a pérola do olhar educado e as atitudes afetuosas que dele emanam.
A esperança a ser cultivada, portanto, é de que as consequências dessa mudança transformem o espaço do lar, tirando-o, passo a passo, da condição de “filial do inferno” e tornando-o, gradual e progressivamente, em extensão – ou antecipação – do paraíso!
Como se faz isso na prática? Nos parece que o ponto de partida é imbuir-se da consciência de que nossa herança cultural tende ser bastante precária. A civilização precisa dar muitos passos para superar terríveis precariedades que ainda caracterizam as condutas das pessoas de modo geral. Os modos de agir e reagir requerem muitos reparos e reputamos que essa proposta de educação do olhar pode contribuir muito nesse sentido. A princípio estamos propondo essa abordagem de educação do olhar especificamente para o trato conjugal, mas ela é aplicável a todos os relacionamentos, em todas as órbitas do viver.
Auto-superação, libertação dos padrões mentais degradantes das relações
Importa imbuir-se da consciência de que pessoas que não se empenham em buscar entendimento e atuar com humildade, com o firme propósito de investir o viver de sabedoria, vivem como que presas a padrões mentais degradantes das relações.
Esses padrões mentais são profundamente enraizados e modelam as condutas de modo tácito, sem que a pessoa perceba – a não ser que se empenhe conscienciosa e denodadamente nessa “empreitada” de auto-superação.
Essa é a razão porque miríades de pessoas vivem de forma turbulenta seus relacionamentos conjugais, como que caídas na vala da ilusão de que as causas dos dissabores estão no outro cônjuge – acalentando a vã esperança de que surgirá alguém melhor e então serão felizes de fato…
Nem sequer suspeitam que do mesmo modo que nutrem aversões pelo cônjuge atual, tão logo passe a fase da paixão, quando a realidade, o dia-a-dia da vida conjugal passar a se estabelecer na nova experiência, o padrão mental de queixa, de murmuração, de inconformismo com os defeitos do outro se restabelecerá de forma tanto quanto ou mais intensa que no relacionamento anterior.
A superação, a libertação dos padrões mentais degradantes da relação precisa ser empreendida no aqui e agora – tão somente assim um possível futuro relacionamento terá possibilidade de ser bem sucedido. Sem esse trabalho interior, os problemas mudam apenas de endereço…
Tais ponderações evocam uma reflexão que ouvi em uma palestra há algumas décadas: “Aquilo que parece ser o problema geralmente não é o verdadeiro problema.” Por isso a suma necessidade de parar para pensar, buscar entender com clareza o que se passa, não se limitando às impressões superficiais. Isso passa pelo esforço consciente para buscar entender a lógica do outro e de alguma forma viabilizar avanços na solução dos problemas.
Conforme retromencionado, as presentes reflexões foram movidas pelo sincero desejo de contribuir com outro ser em suas dificuldades conjugais, tendo tal impulso motor gerado a oportunidade de aprofundar o olhar e proceder diversos ajustes no relacionamento com meu cônjuge.
Com essa atitude reflexiva, procurando compreender as coisas, analisar as relações de causa e efeito, constatei que uma “nuvem negra” pairou no decorrer de mais de três décadas e meia sobre nosso lar, gerando amargura, mal-estar e o “afundamento” da relação em miríades de conflitos…
A causa de tal efeito: a permissão, ou a omissão em não barrar a interferência dos assuntos de trabalho no ambiente do lar. Identificada tal causa, determinei: “Eu não vou mais falar a respeito desses assuntos aqui em casa. Somente o farei no ambiente do próprio trabalho, aqui vamos falar do que vale a pensa ser tratado, basta!”
E nessa esteira passei a buscar, no dia-a-dia, proceder de forma diferenciada, consciente, alerta, atento para não cair nas armadilhas que levam às quedas nos conflitos conjugais.
A outra pessoa falou algo que não soou bem? Posso me irritar e responder “à altura”. Ou posso ouvir e silenciar, refletir, ponderar… E então fazer uma colocação ajuizada, com serenidade e civilidade.
Posso julgar imediatamente a pessoa. Mas ao invés disso, posso também olhar com compaixão, considerar que aquela atitude é resultante de uma sequência de fatores, de um contexto impróprio, que não a favoreceu para se portar melhor… E valendo-se do propósito estabelecido de tudo revestir de ternura, tolerar o mau procedimento e reagir com espírito elevado, com paz, amor, carinho, com profunda ternura…
Silenciar, “deixar a poeira assentar” e abordar a questão no momento oportuno, no tom apropriado e com as palavras certas… E em alguns momentos “dar uma chacoalhada” também, se necessário, mas que a regra seja interagir em paz e com amor, restando como exceção as abordagens mais enérgicas.
Nesse processo, quem se dispõe a dedicar-se sinceramente nesse jornada de auto-superação se liberta do próprio azedume existencial e passo a passo, gradual e progressivamente, conquista a coroa da vitória das vitórias, que é a que se consegue sobre si mesmo. E aí não mais importa como as pessoas ao redor ajam ou reajam: a verdadeira paz foi definitivamente conquistada!
Postura sensata, realista, focada na resiliência
E então, agindo de tal forma tudo se transformará rapidamente em um “mar de rosas”? Haverão muitas melhorias, certamente, mas isso não significa que deixarão de haver momentos álgidos, duros, altamente desafiadores, que levarão à tentação de “jogar tudo para o alto”… Porém o “remédio” para isso será a paciência e a constância…
Outro ponto importante: serei capaz de me manter sempre, cem por cento do tempo focado, com as atitudes sintonizadas nesse propósito, coerentes com ele? Certamente não, haverão resvalões, tropeços, quedas… Mas cumpre levantar, retomar e seguir em frente…
É necessário ainda estar prevenido para o seguinte: depois de todos esses inauditos esforços, haverá reconhecimento, alguma manifestação de apreço… alguma centelha de gratidão se acenderá no coração do outro? Melhor não contar com isso!
O ser humano “bruto”, que não se determinou a assumir um processo de auto-cultivo sério, tende a ser insaciável… Nada, absolutamente nada o satisfaz… Haverá sempre a expectativa de mais e mais…
Quem não tem o olhar educado na perspectiva retromencionada tem uma propensão aguda a minimizar tudo o que recebe de bom e maximizar os menores dissabores, potencializando-os e colocando-os “na vitrine”, obnubilando, empalidecendo, fazendo dissipar de sua tela mental o que quer que haja de positivo em relação ao outro, mergulhando tudo no próprio azedume existencial…
E o que cabe fazer, como ser portar diante disso? Perseverar, superar, atuar com resignação e paciência!
Educação da língua, do ouvido e dos pensamentos
Quando se compreende isso, quando se passa a caminhar nessa direção, tendo esse propósito como norte, essa educação do olhar vai frutificando em educação também da língua, que deixa de falar o que não vale a pena ser expressado; do ouvido, que deixa de dar importâncias a falas que são claramente produtos de imaturidade (e se levadas em conta se tornam veneno puro); e também dos pensamentos: evita-se dar “rédeas soltas” a conjecturas devaneantes que aprofundam cada vez mais as mágoas, os ressentimentos e um sem número de negatividades…
Esse processo, esse cultivo pessoal sendo assumido em relação ao parceiro de jornada conjugal gera uma espécie de “campo de proteção”, como que imunizando os cônjuges de cair nas armadilhas que rondam constantemente um e outro, dentre as quais a tentação de “mergulhar no pecado”, de cultivar “afetos secretos” para suprir os danos do fracasso conjugal – os quais geram os mais terríveis dissabores, tal e qual quaisquer outras atitudes ilícitas que possam ser tomadas nas mais diversas órbitas do viver…
“Fábricas de decepções”
Sem os empenhos no que me parece apropriado denominar de cultivos mentais, ou seja, sem ajustar a mente para se tornar resiliente às miríades de insatisfações que são geradas nas interações, a vida de relação fica muito difícil. Sem isso, os que nos rodeiam se tornam como que “fábricas de decepções”.
Isso porque cada pessoa foi constituída ao longo de sua própria história de um modo peculiar e se faz necessário um esforço consciente para compreender essa história, essa construção, respeitando o fato de que cada pessoa é o melhor que consegue ser e a partir disso buscar contribuir, na medida do possível, para que se torne melhor…
Um exemplo que me parece apropriado para ilustrar como funciona a “fábrica de decepções” é o de uma pessoa conhecida que me confidenciou ter reencontrado após algumas décadas alguém por quem sentia um afeto muito especial e a recíproca era verdadeira também.
O referido afeto não evoluiu no tempo da juventude, ambos se casaram com outros cônjuges, tiveram filhos… e em determinado momento a vida proporcionou a oportunidade de retomarem o contato e passaram a interagir em um intenso trato de amizade.
Algo muito bonito, muito especial passou a ocorrer entre ambos, fruto de um sincero bem-querer enraizado há décadas. Uma das partes tinha toda a clareza de que a trilha em que poderiam avançar era a da amizade. A outra parte acalentava a esperança de restaurar o que não fluiu na juventude…
Algo condenável de uma parte ou de outra? Não. Porém é uma situação que requer muita perspicácia. A princípio a atitude “travada” de uma das partes gerou um sentimento de decepção na outra pessoa.
Porém em uma análise mais profunda, o bem-querer de quem se pautou pela prudência protegeu ambos de situações das mais deploráveis, pois as consequências desastrosas da atuação desordenada geraria sofrimentos atrozes para ambas as famílias.
Como olhar nos olhos dos filhos tendo atuado de forma que não condiz com o papel de esposo ou esposa, de pai ou de mãe? Como olhar nos olhos do cônjuge vitimado pela traição? Como olhar nos olhos do cônjuge do outro, também vitimado pela traição? É possível conceber que a felicidade pode ser construída gerando dor e sofrimento para muitos?
Ou isso poderia ser evitado, vivendo de aparências, com dissimulação, tendo algo a esconder? Não! Nessas circunstâncias, o que se reputava poder tornar-se fonte de satisfação plena, realização do amor, se torna ruína, gerando exatamente o contrário daquilo que se esperava!
Meu confidente afirmou ainda que manter a higidez ou integridade moral gerou um efeito que ele descreve como de magneto de graças e bênçãos, tendo percebido nitidamente uma evolução, uma “alavancagem” da qualidade da relação com o próprio cônjuge a partir da atitude assertiva tomada no referido episódio.
Confidenciou ainda que em tempos idos, pouco mais de uma década atrás, passou por uma terrível experiência que gerou efeito extremamente oposto a esse: “pisou na bola”, traiu, andou na contramão em sua vida de relação e os efeitos foram desastrosos…
Sair dos trilhos da conduta pautada por valores morais e éticos embasados na alteridade, no respeito ao outro, na máxima preconizada por Jesus Cristo: “Faça para o outro o que deseja que os outros lhe façam” se constitui fonte das mais terríveis desgraças… Ao invés de magneto de graças e bênçãos, as condutas desviantes se constituem magnetos de desgraças e maldições…
Perdão e autoperdão
Importa ainda, nessa perspectiva, de dedicação determinada e consciente de restaurar o relacionamento conjugal, seja qual for a retrospectiva – seja lá o que for que tenha ocorrido no passado – envolver tudo em camadas e sobrecamadas curadores de perdão do que o outro fez de errado e também de autoperdão daquilo que se fez e não deveria ter sido feito.
Autoconsciência, empatia, compaixão e estado de alerta para manter a paz
Todos, de um modo ou de outro, apresentamos em nossos comportamentos manias e/ou transtornos psicológicos que se expressam em maior ou menor grau, sendo necessário enfrentar essas realidades buscando perceber o que é importante para a outra pessoa e identificar o que é possível fazer para amenizar, tanto quanto possível, suas limitações… Cumpre buscar contribuir da melhor forma possível para as superações, colocando em prática a máxima expressa na canção: “se amor é decisão, eu decidi te amar!”
É importante também manter-se vigilante para minimizar as “pauladas” mantendo-se atento às oportunidades para fazer refletir… E ciente de ter se empenhado para fazer o melhor possível, “digerir mentalmente” os impropérios, aceitando com resignação o que o outro ainda não consegue superar, sem perder a paz.
Investimento que paga excelentes dividendos!
Os empenhos de cultivo consciente do relacionamento, a dedicação em manter o olhar focado nas qualidades do outro; em manter o ouvido seletivo, não dando importância ao que não vale a pena; em “manter a língua entre os dentes”, não falando o que não agrega valor; em manter um controle consciente sobre os pensamentos, não permitindo “rédeas soltas” às críticas mentais do outro é algo que exige algum esforço, porém os benefícios são imensamente superiores!
Em síntese: quando há a constância nessas atitudes, o relacionamento conjugal vai saindo gradualmente da realidade frustrante dos conflitos recorrentes (os quais deixam de ser alimentados quando as posturas assertivas e maduras passam a predominar no cônjuge com maior nível de consciência) e eleva-se ao que pode ser definido como realidade de amor extasiante.
O relacionamento conjugal, como qualquer empreendimento, quando bem gerido, adequadamente administrado, gera resultados alvissareiros. Do contrário, sendo mal administrado, redunda em fracassos e dissabores sem fim…
Resgate fundamental para evitar sequelas psicológicas nos filhos
Pessoas com maturidade para não “viajar no mundo mágico” se mantém alertas para não se perderem em devaneios imaginários e buscam cotidianamente compreender a realidade a fundo, com humildade e respeito, empenhando-se para desenvolver a sensibilidade e auscultar as necessidades do cônjuge, buscando contribuir com ele para satisfazer essas necessidades e resgatar, passo a passo, dia a dia, o relacionamento, o amor, a paz e a felicidade conjugal.
Essas atitudes, essa determinação em fazer o melhor, em educar-se para viver em paz e construindo a felicidade conjugal sobre bases sólidas é fundamentar para evitar – ou sanar – eventuais sequelas psicológicas que tendem a se estender para os filhos. Constitui-se em processo de restauração que também contribui significativamente para o desenvolvimento saudável da prole. Quando os cônjuges – reitera-se: partindo do que tem mais consciência assumindo a maior responsabilidade – se empenham sinceramente em colocar em prática o acima exposto, proporcionam aos filhos a melhor das dádivas e a mais preciosas das heranças: viver em um ambiente de paz, habituando-se a interagir com paz, amor e harmonia.
Da autoeducação à educação do outro
Os empenhos retromencionados se constituem por excelência em processo de autoeducação, de educação de si mesmo, alimentado pela esperança (reiteramos) que devemos cultivar sempre – esperando e se empenhando para tornar realidade esse esperado – de nos tornarmos a melhor versão possível de nós mesmos, de modo a inspirar quem está ao nosso lado a se tornar a melhor versão possível de si mesmo também.
Fazendo o nosso melhor, buscando apoiar a pessoa que está ao nosso lado, conversando francamente para buscar compreender e dar os passos necessários para superar os obstáculos e avançar na relação – com vistas a elevar gradativamente o nível de harmonia e felicidade, de modo a aprimorar, tornar melhor, evitar o indesejável e promover o desejável na relação conjugal.
Nesse processo exerce um papel determinante a atitude que emana da autoridade de quem se propõe a se empenhar denodadamente nesse processo de autoeducação. Em diálogo posterior com a pessoa que inspirou essas reflexões, fui brindado com mais uma partilha sumamente inspiradora, que remete ao que me parece poder ser o corolário, o fruto mais robusto de tudo isso: a educação do outro.
Essa pessoa mencionou que em determinadas ocasiões, quando as coisas passam de determinados limites, expressa: “(nome do cônjuge) deu! Basta!”
Às vezes é essa firmeza o que se faz necessário, servindo como elemento terapêutico por excelência para extirpar os efeitos danosos das manias e transtornos psicológicos de quem não busca de outros modos de tratá-los, resolvê-los…
Essa atitude “exorcizadora” de condutas impróprias se constitui um recurso para se lançar mão não apenas em situações extremas. Ela pode – e deve – com gradações apropriadas, ser aplicada no dia-a-dia, “cortando pela raiz” toda e qualquer atitude imprópria. Não se aceita o que não é certo e ponto final!
De modo similar ao que deve ser feito com crianças e adolescentes, o trato terno e carinhoso deve ser a regra, mas a firmeza e o estabelecimento de limites claros face a eventuais condutas desviantes deve se fazer presente pari passu, concomitantemente… Consoante a afirmação do renomado médico psiquiatra, educador e escritor brasileiro Içami Tiba, a qual se tornou título de uma de suas obras: “Quem ama educa!”
É o que cabe ser feito em benefício de todos, mas a principal beneficiada é a própria pessoa imatura, ainda não suficientemente desenvolvida, protegendo-a assim dos efeitos de suas próprias precariedades existenciais.
Casos especiais, situações extremas…
Há casos especiais, que se constituem em situações extremas, quando a realidade que se apresenta entre os cônjuges envolve patologias de ordem psicológica, dependência química etc… O alcoolismo, por exemplo, que geralmente descamba no extremo da violência doméstica…
Também os TOCs – transtornos obsessivo-compulsivos se apresentam como desafios extremos, especialmente quando não há a disposição por parte de quem padece do mal de buscar a oportuna ajuda … Muitos sequer admitem padecê-lo, muito embora os sintomas sejam flagrantes, inequívocos, cristalinos aos olhos de todos…
Quanto heroísmo, quanta virtude concentrada… quanto se há de admirar e enaltecer os esforços dos cônjuges dessas pessoas, que vivem essa realidade no dia-a-dia – e quanto é necessário compreendê-los quando se sentem profundamente sobrecarregados e buscam de alguma forma uma válvula de escape…
São heróis e heroínas do dia-a-dia que inspiram o maior respeito, dignos da mais elevada compaixão… Cumpre a quem se aproxima e vislumbra poder de algum modo contribuir, colaborar… se empenhar tanto quanto possível, envidar os maiores esforços, dedicar-se denodadamente para auxiliar de alguma forma a minorar o peso desses fardos…
A pessoa que está na situação patológica não é propriamente culpada, mas atua de modo que causa muitos dissabores, contrariedades… a manutenção da convivência requer muitas renúncias por parte do cônjuge que está associado ao padecente da condição patológica…
O mais sensato e o que deve ser feito por todos é buscar auxílio, tratamento, cuidado especializado para os acometidos por tais males… Porém nos caso em que a parte que padece da condição patológica se nega a fazê-lo, resta ao outro buscar se fortalecer para enfrentar a situação, elevando os níveis de resistência e resiliência… E também estabelecer limites sensatos para não permitir que os danos se agravem.
Desafios dessa natureza são de tão alta magnitude que requerem auxílios dos mais elevados e considero de suma importância reportar-se ao âmbito espiritual, à busca da proteção, da inspiração e do auxílio divinos para suportar as agruras que suscitam… Creio que o bom Deus provê porções extras de graças a esses seres que atuam como heróis e heroínas anônimos, desconhecidos aos olhos do mundo mas altamente visíveis e contemplados – assim o creio – pelos olhos de Deus!
Creio que o bom Deus proporcionará a recompensa, no tempo oportuno, pela abnegação, espírito de renúncia, desprendimento… pela dedicação extrema de quem persiste em tais relacionamento, apesar de todos os reveses…
Por mais terrível e desoladora que se apresente a realidade existencial dessas pessoas, creio que, mantendo a fé, a esperança e o amor, com a consciência de que nada é impossível para Deus, boas notícias podem se fazer presentes de forma surpreendentemente alvissareira, no tempo de Deus…
A Providência Divina é maravilhosa, os desígnios divinos são portentosos, há-se que invocar a iluminação do Espírito Santo para abrir os olhos do entendimento e assim poder compreender tais desígnios!
A esse respeito, passo a apresentar alguns casos que me parecem bastante representativos dessa realidade da maravilhosa Providência Divina e dos portentosos desígnios divinos que operam de forma contundente, mas muitas vezes quem mais é beneficiado não consegue se dar conta…
Autofortalecimento, elevação dos níveis de resistência e resiliência
Seja qual for a magnitude do desafio de convivência a ser enfrentado, cumpre cultivar atitudes proativas, que favoreçam o autofortalecimento, a elevação dos níveis de resistência e resiliência.
Nesse sentido, é fundamental colocar o foco naquilo sobre o que é possível manter o controle: na forma de reagir diante do que ocorre. Eu não tenho como controlar a atitude do outro, mas posso desenvolver o autocontrole sobre minha forma de reagir frente às atitudes de terceiros.
Um exemplo que ilustra como fazer isso pode ser extraído de um episódio ocorrido no decorrer de um diálogo entre dois casais amigos. A esposa de um perguntou à esposa do outro: “Quais são as qualidades que você vê em seu esposo?” Após pensar por alguns instantes, ela respondeu: “É… pelo menos ele não bebe…”
Foi o que conseguiu identificar de positivo no esposo… Algum tempo depois o esposo “desqualificado”, falto de qualidades aos olhos da esposa, perguntou a ela se já tinha conseguido ver mais alguma qualidade nele. Ela pensou alguns instantes e então manifestou: “É, pensando bem, você é uma boa pessoa, tem um bom coração.”
Após décadas de convivência, ela não conseguiu enxergar qualidades no cônjuge… Diante de estímulos para se pronunciar a respeito, em um primeiro momento o que conseguiu expressar foi a ausência de um grande defeito (pelo menos ele não bebe) e depois, de forma genérica, também mediante estímulo (resposta estimulada), expressou que ele não era uma má pessoa…
Esse marido, em tempos passados, teria reagido de forma muito diferente do que fez após passar por aquilo que denomina de práticas de cultivo espiritual disponibilizadas no “Buffet espiritual” no sítio eletrônico catolicospraticantes.com.br.
Ao invés de recriminar a esposa, de reagir de forma talvez indignada, refletiu: “Ela não consegue enxergar minhas qualidades. Vou procurar melhorar, me tornar uma pessoa melhor… Porém objetivamente, o que tenho que compreender nesse caso é que, de modo similar ao que acontece com algumas pessoas que têm deficiências visuais, o que ocorre nessa circunstância é uma deficiência mental, de alguém que não consegue distinguir qualidades onde elas indubitavelmente existem, ainda que possam não ser de tão grande expressão…”
Essa atitude, de autocontrole da reação, evitou a geração de muitos outros problemas… De modo similar há que se buscar atuar diante de tudo o que não agrada: ao invés de reagir instintivamente, elaborar de forma consciente, sensata, ponderada… a maneira de se postar diante do que vem do outro.
“Dulcificação” psicológica
Tudo na vida é passível de ser melhorado, aperfeiçoado, aprimorado… Inclusive a própria psicologia, a maneira de ser e interagir no mundo. Observa-se no âmbito tecnológico melhorias contínuas nos sistemas que tornam mais ágeis e eficientes computadores, aparelhos de telefone celular…
Será possível, buscando aprimorar o entendimento, numa postura de humildade, com abertura à possibilidade e atenção às oportunidades de buscar se tornar melhor, investir o viver de níveis gradual e progressivamente superiores de sabedoria e desse modo aprimorar-se psicologicamente também, agregando melhorias no “sistema operacional”, no modo de ser e interagir com os demais?
Admitindo essa possibilidade e tomando um elemento citado anteriormente, o qual tende a se fazer presente sem que a pessoa se dê conta: o “azedume existencial”, trazemos à baila uma proposição, um alternativa, uma possibilidade de correção desse elemento psicológico que tantos prejuízos trás ao próprio ser e aos que o circundam.
Sendo o tema proposto para essa reflexão a “dulcificação” psicológica, debrucemo-nos sobre o vocábulo “dulcificar” (versão online do Dicionário Michaelis):
Dulcificar significa, no sentido literal, tornar algo doce, temperar o amargor ou a acidez. No sentido figurado, refere-se ao ato de suavizar, abrandar ou amenizar algo difícil, tenso ou doloroso (situações, palavras ou sentimentos), tornando-o mais agradável e tolerável.
Subtópicos e Sinônimos
Sentido Figurado: abrandar, suavizar, amenizar ou pacificar (ex: dulcificar um tom de voz áspero ou suavizar a dor de uma perda).
Sentido Literal: adoçar, edulcorar ou açucarar (frequentemente usado na culinária ou farmácia para reduzir a acidez).
Cumpre-me, em honra à verdade, consignar um testemunho pessoal a respeito dos efeitos dulcificadores gerados pelo empenho na prática católica, na busca de viver em conformidade com os ensinamentos de Jesus salvaguardados e atualizados pela Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.
À guisa de síntese, compartilho abaixo a oração da manhã – um bom resumo do espírito da doçura cristã – que recito matinalmente, buscando cultivar todos os dias, colocar em prática as sentenças de seu enunciado:
Oração da Manhã
Senhor, no silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-te paz, a sabedoria, a força.
Quero olhar hoje o mundo com olhos cheio de amor, ser paciente, compreensivo, manso e prudente. Ver além das aparências teus filhos como Tu mesmo os vês e, assim, não ver senão o bem em cada um.
Fecha meus ouvidos a toda calúnia. Guarda minha língua de toda maldade. Que só de bênçãos se encha meu Espírito.
Que eu seja tão bondoso e alegre que todos quantos se achegarem a mim sintam Tua presença.
Reveste-me de Tua beleza, Senhor, e que, no decurso deste dia, eu Te revele a todos!
Pode parecer, a primeira vista, algo ingênuo, prosaico, infantilóide… Porém os efeitos que gera, associado a outras orações sequenciais, são tão poderosos, fazem tanta diferença, que geram resultados extraordinários!
Penso que é a única explicação plausível para a expansão que o cristianismo teve ao longo da história: gera no ser a necessidade de partilhar, de levar para outrem a boa notícia: é possível viver em paz, é possível viver sentindo intensamente o amor… Não consigo deixar de me empenhar para transmitir a outras pessoas essa paz, esse amor, esse supremo bem-estar, essa maravilha que fez tanta diferença em minha vida!
“Currículo relacional”, “tributo ao amor”
Proceder em conformidade com parâmetros aqui apresentados tende a gerar como efeito a ampliação do nível de maturidade, transmutando o azedume existencial em paz profunda…
Quem se empenha para atuar inspirado em tais pressupostos, no caso de um dia o cônjuge vir a faltar, se decidir lançar-se a outro “empreendimento conjugal”, terá grandes chances de não se tornar um “príncipe sapo” ou uma “princesa megera”.
De modo semelhante ao que ocorre na prestação de serviços para organizações, a experiência acumulada anteriormente conta muito para o sucesso nas atuações posteriores. É assim que se forma o que se pode denominar de “currículo relacional”…
Sem passar por esse processo, a “novela” do relacionamento conflituoso tende a se repetir indefinidamente, reiterando o mesmo roteiro, apenas mudando parte dos “atores”…
Em síntese: os empenhos sinceros para educar o olhar, a língua, o ouvido e os pensamentos, colhendo como fruto a paz e a harmonia é o grande “tributo” que cumpre devotar ao amor. Isso proporciona viver o amor da melhor forma possível com a pessoa com quem se está e ao mesmo tempo gera o campo propício para, se for o caso, viver intensas e saudáveis convivências amorosas no futuro.
Esse é o caminho, a jornada a ser empreendida para a conquista da verdadeira felicidade conjugal – essa é a esperança que vale a pena ser cultivada. Os “atalhos” tendem a descambar, na esmagadora maioria dos casos, na vala comum das ilusões degradantes, que levam os que nela caem às mais cruentas agruras nos abismos existenciais do fracasso moral e seus pérfidos consectários.
Frutos maturados do viver exercendo as virtudes
Ah, que diferente, que maravilhoso é viver sob os auspícios divinos, no exercício das virtudes, com humildade, doçura, mansidão…
Aquilo que antes se tornaria motivo de intensos conflitos, esganiçadas desavenças e os consequentes intensos aborrecimentos, se resolve com palavras como: “Eu falhei, peço desculpas, me perdoe!”, emitidas pela pessoa que incorreu na falta.
Da parte de quem sofreu com a falha, a exposição serena das consequências geradas pela ação ou omissão do faltoso e, na sequência, paz, serenidade, ambiente harmônico, afetuoso – sem mais cobranças, nem mágoas e ressentimentos…
Assim, o que antes era como que “filial do inferno” vai se tornando, passo a passo, gradual e progressivamente, experiência paradisíaca, onde o amor se faz realidade cada vez mais pujante e intensa em todas as suas facetas…
Referências:
- Mateus 7,12: “Tudo o que quereis que as pessoas vos façam, fazei-o vós a elas.”
- Mateus 11,29: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.”
- Lucas 2,29: “Maria guardava todas essas coisas e as meditava em seu coração.”
- Tiago 3,3-6: “Quando pomos o freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, governamos também todo o seu corpo. Vede também os navios: por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas. Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta! Também a língua é um fogo, um mundo de iniquidade. A língua está entre os nossos membros e contamina todo o corpo; e sendo inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa vida.”
- 1 Coríntios 4:7: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo perdoa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
